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Coluna Raimundo Prett | Raimundo Prett é Jornalista e Escritor. Morou na Holanda por 27 anos, e retornou ao Brasil no final de 2007. A partir de agora, é com toda honra que anunciamos que ele publicará em seu blog aqui no nosso site, suas crônicas, textos e reflexões extraídas da terra do País Tupiniquim. Se você tem sugestões de Pauta ou comentários, escreva para ele direto: prett@radiopulsabrasil.com |
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Setembro 2009 |
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Música e amor ao próximo: Um perfil de Ben Strik Tekst: Peer Schouten/R.J. Gomes Prett Tradução: Raymundo Prett
Ben Strik está de volta ao Brasil. Desta vez para lançar seu livro “Morrer para Viver”. Sua maratona começa em Vitória, Espírito Santo, onde resolveu publicar a tradução da versão holandesa da sua obra. Dali ele segue para várias localidades brasileiras incluindo Cachoeiro de Itapemirim, Rio de Janeiro Salvador e São Paulo divulgando seu trabalho. Acompanhe a viagem de Ben Strik pelo Brazil no webblog http://www.benenpattystrik.blogspot.com.  Ben Strik. Pode ser que nome não lhe diga nada. Talvez seja porque ele se manteve escondido na floresta amazônica durante várias décadas. Certamente reconheceria a voz dele, caso você seja uma das tantas pessoas que possuem um de seus discos. Em seus 84 anos, Ben Strik quer agora mesmo é escrever. Porém, sem deixar de envolver-se com os trabalhos de “suas” fundações, das quais a mais conhecida é “Brasil op Weg” - que ajuda, para usar suas palavras, “sessenta milhões de excluídos no Brasil”. Este é o perfil de alguém que numa época de informalidade merece ser tratado com bastante respeito. |
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Março 2009 |
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No tempo do onça Entre o sobe e desce na bolsa de valores em Wall Street e do mundo todo, alguns acontecimentos despertaram minha atenção ultimamente: a condenação papal às bruxarias, durante sua visita à África, a limpeza no Senado anunciada pelo seu novo velho presidente José Sarney e o atropelamento de uma garotinha em frente da delegacia de Cachoeiro. Sem ser matemático, afinal sempre fui péssimo aluno no que diz respeito às ciências exatas, vejo um denominador comum nestes acontecimentos. Algo que as produções hollywoodianas chamariam de “Volta ao Futuro”, mas que eu, como bom brasileiro nato, defino em bom português como volta ao tempo do onça.
Desde que Albert Einstein revolucionou o mundo com sua Teoria da Relatividade é sabido que pouco sobrou de exato neste nosso pequeno universo chamado Terra. Tanto na Arte, Literatura e outros campos o homem, salvo algumas exceções na História, passou a ser menos objetivo na sua visão da realidade. Nascendo a partir daí movimentos mais arrojados da criatividade humana como de Pablo Picasso e Salvador Dali, nas Artes Plásticas, Guimarães Rosa, na Literatura, e tantos outros nomes que poderia mencionar aqui. Mais tarde até mesmo dois mais dois passou a ser cinco, como cantava nosso Roberto. E tudo ficou certo, não é mesmo?
Entretanto, nesta esfera da subjetividade e do abstrato, uma coisa não foi abolida da nossa sociedade pós-moderna: a capacidade de se apegar ao passado em momentos de crise. Declino-me em enumerar as tantas pesquisas desenvolvidas por psicólogos e outros especialistas do tipo tentando explicar este fator na mente humana. Mas, vá por mim é certo meeeesssmo, como dois mais dois são quatro.
Estamos enfrentando uma crise mundial e embora alguns a julguem financeira posso afirmar categoricamente que ela é estrutural. Acreditamos saber de onde viemos. Onde estamos é um desafio. Para onde vamos é uma incógnita. Menos para aqueles é claro, que acreditam que o céu é uma rua pavimentada de ouro e diamantes. Ou para os mais radicais homens-bomba que, na crença de Maomé, acham que em sendo mártires serão rodeados por virgens no mundo celestial. Peraí, será que espírito também goza?
Seja como for, a verdade é que ao entrar neste túnel obscuro da incerteza, há pessoas que, por não ver a luz no final, sem a capacidade ou disponibilidade de acender sua própria, tendem a procurar a luz no começo do túnel, ou seja, no caminho de volta.
Assim, elegemos ex-presidente como presidente do Senado, ou, no caso de Collor de Mello, como presidente de uma das mais importantes comissões existente em Brasília. Vale lembrar que foram eles os responsáveis pela leva de brasileiros que deixou seu país, incluído eu, na década perdida dos planos cruzados, de verão, etc. Deja vu esse filme? ou estariam eles percorrendo sua via sacra para se limparem dos pecados cometidos outrora? Collor de Mello já declarou o mea culpa, ao afirmar ter sido um erro congelar as poupanças durante seu governo e foi veemente ao afirmar que irá controlar com punho de ferro os gastos. Bem, dos outros pecados ele deve ter sido absolvido por algum padreco lá de Alagoas. José Sarney, por sua vez, eleito presidente do Senado brasileiro decidiu limpar a casa parlamentar das tantas diretorias inúteis que corroem milhões de reais em gastos públicos. Um contraste com seu governo nos idos dos anos ’80, onde o termo hiperinflação no Brasil – 1.000% ao ano – se tornou uma realidade graças também às extravagâncias deste caudilho maranhense com os gastos públicos.
Contrastante também foi ver a figura do papa alemão, por não dizer ariano, em meio à negritude de católicos que povoa o continente africano. Durante o giro Bento XVI – até hoje me pergunto quem foi o infame que traduziu assim o nome original Benedictus para o português- fez alguns pronunciamentos interessantes em defesa dos pobres, sobre a AIDS, contra o uso de camisinha, como é de praxe. Mas pra mim a novidade no pronunciamento deste que desceu das sete colinas que abrigam o suntuoso Vaticano, e que costuma passar suas férias no Norte da Itália – diga-se de passagem era também a região preferida de Hitler - foi a condenação às bruxarias na África. Não sou adepto de nenhum tipo de ocultismo, seja em terreiro ou em banco de igreja. Mas pera lá, voltem o filme. Não é este o Chefe daquela mesma Igreja que juntou o cristianismo aos cultos pagãos europeus nos primórdios da Era Cristã e mais tarde no sincretismo religioso ao culto afro-americano na América Latina de Santa Bárbara, São Jorge e outros mais? Será o Benedito? Deixem os africanos viverem à sua maneira. Ou teria sido a viagem, uma limpeza de consciência, já que, como ventilou em vários meios, Ratizingen teria namorado as fileiras nazistas durante sua infância? O futuro nos dirá.
Ah, sobre o ocorrido na delegacia de Cachoeiro? Será que o Casteliogne vai resolver esse complicado e confuso namoro entre a Linha Vermelha e a Avenida Monte Castelo, na altura da delegacia, ainda durante o seu mandato? ou vai esperar o retorno da dobradinha que governou a cidade durante 30 anos para fazê-lo. Os quatro anos futuros nos dirá. Até lá cada qual que se cuide na hora de atravessar. Só espero que a menininha esteja passando bem. |
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Dezembro 2008 |
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Jibóia de aço na Cidade de Pedra 
Após 27 anos vivendo fora de Cachoeiro regresso em meio aos eventos que marcam o retorno do “Rei” Roberto Carlos a sua cidade natal. Como qualquer outro saudosista, divago a procura daquilo que deixei para trás há quase três décadas. Muito do que era ao lado do que esta por ser.
A linha de trem que cortava a cidade tornou-se asfalto. Perto destes nervos do desenvolvimento costumava com freqüência deparar-me. Viajava sobre eles como um equilibrista no sonho de um dia pegar os trilhos da vida em busca de uma nova realidade.
Muitos foram os amigos que se perderam nestas cordas de ferro, quiçá em busca do mesmo sonho. Menos afortunados do que Roberto Carlos, tiveram seus desejos de irem além do horizonte esmagados na tentativa de pegar carona nestes burros de aço. A carga era minério, carvão e aço extraídos das torres faraônicas construídas pela divina mãe natureza e que formaram esta região montanhosa no Sul do Estado do Espírito Santo. Sem falar no cimento Nassau, granito e mármore delas açoitados pela fúria do desenvolvimento. O orgulho outrora de Barão de Mauá deu lugar ao que se chama hoje de a Linha Vermelha.
O corte grande era um lugar que em tempos de menino costumava percorrer nos fins de semana. Com amigos e parentes íamos a procura de um refúgio para o calor escaldante que se intensificava ao final de cada Primavera. Durante o verão, transforma o Vale do Itapemirim num microondas sem manual de instrução. Além de amenizar o calor, o córrego, cercado de dormideiras e capim, era também fonte de diversão e pescaria. Mas na pujança do crescimento, esta veia pela qual jorravam as águas cristalinas do Pico do Itabira perdeu muito de seu espaço, compartindo-o hoje com o asfalto de acesso às esculturas que forma este museu natural.
Pedra de grande exuberância e beleza, a pirâmide de Guize capixaba adormece no seu sono milenar ao lado de uma velha companheira a Esfinge. Esta ainda coberta pelo denso véu nebuloso aos olhos daqueles despreparados para contemplar inconfundível beleza. Ambas foram talhadas por mãos doces e gentis da brisa que há milhões de anos sopram no Vale do Itapemirim.
As piabas já não são mais pescadas com um simples anzol ou peneira. Petrificadas castigam hoje a tez enrugada do velho calhambeque. As jibóias que imortalizaram a vedete cachoeirense Luz Del Fuego se converteram em conexões de Internet, trazendo para dentro de cada lar a linha do horizonte. Dora Vivácqua, musa de tantos poetas, foi esquecida pela meloqüência da politicidade do “American Way” que reduziu o desejo de libertação da mulher ao pensamento de uma certa Beth Friedman. Memória viva reduzida a álbuns e páginas amareladas na Internet ou a um recanto na Casa dos Braga. Oh! vasto mundo. Chamar-se Raymundo rima. Com De Andrade se constrói uma cidade.
Nada menos justo numa realidade onde a palavra de ordem é a busca por aquilo que se chama Progresso. Uma casa, um carro, uma rodovia de acesso e espaço para construir sua própria realidade em que o contato com pavão, porquinhos da Índia, galinhas, galos, porcos e outros animais, que tanto marcaram a minha infância, se restringiram aos videogames ou a embalagens de supermercados.
No entanto, minha ponte de acesso ao passado só ameaçou a desmoronar-se mesmo durante uma visita ao Cemitério Municipal, atrás do antigo Graça Guárdia onde cursei o primário. Em outros tempos para mim, visitar o “solo sacramentado” era um passeio pelos contos populares de correntes e histórias cercadas de fabulosos mistérios como o de Antônio Vivácqua. Por certa maldição, o malvado carrasco se transformaria em seu leito fúnebre numa diabólica serpente.
Percorrendo os túmulos viajava através dos nomes de personagens que um dia protagonizaram a edificação dos alicerces sobre os quais se firmam esta cidade às margens do Itapemirim. Inúmeros nomes conhecidos, esquecidos e até mesmo omitidos. Passado em que diversão era brincar de pique na frente de casa, apertar campainha nas casas dos mais abastados, jogar pedrinhas com os vizinhos, tomar banho de chuva nas cascatas que se formavam nas calhas das casas ou tocar seresta para a namorada. Aos mais destemidos e amantes do esporte radical ficava o desafio de descer os morros calçados de paralelepípedos com tábua de madeira revestida de sebo.
Das criptas no cemitério pouco resta, em alguns casos apenas a casta de granito ou mármore, materiais dos quais a cidade se abasta. Cruzes, correntes, ornamentos e adornos feitos de bronze deste passado perdido foram levados. De uma velha torre exuberante e acorrentada que em seu cume levava uma jibóia de aço resta apenas a memória do corpo gélido, séqüito e agonizante. Visíveis cicatrizes deixadas por estes usurpadores de túmulos da modernidade, no seu afã de construir sua própria cidade de pedra. Raimundo Prett |
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